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terça-feira, 21 de agosto de 2012

A antropologia da culinária sagrada

Fragmentos de vida
Da minha vida
Com certeza algumas assertivas são verdadeiras, “O candomblé começa na cozinha”.
Entre todas as máximas essa creio ser a mais verdadeira. Nas cozinhas dos terreiros tudo se sabe e tudo se aprende por isso tornou-se o local mais bem guardado dos terreiros, território onde a supremacia das mulheres é indubitavelmente superior. Guardadoras dos segredos culinários sagrados, as Iya base e as Iya sinje reinam absolutas nesse território onde os homens com raríssimas exceções são convidados, mesmo assim com reservas. Ao longo dos meus anos de iniciado tive oportunidades raras de conviver com algumas eximias Iyas,
D. Mansa de Oxun minha madrinha, cozinheira de primeira e feiticeira de mão cheia, sabia como ninguém fazer um “Moqueado” pra Esu .Era de lamber os beiços, D. Augusta mãe de Mirinho de Osun sabia como ninguém fazer um Galo de “Curruti” e nós nos deliciávamos com uma bela cerveja após os preparativos do candomblé em andamento. Eu, Gegeu, Aprígio, Xileta, Gabriel, Xibeqüe e quem mais chegasse tinha direito a um “taquinho” do galo e um copo de cerveja. Iya Cristina da casa de Zezinho de boa viagem que  muito embora fosse  Iya Temi da casa sabia como ninguém  agradar os Voduns e a nossa “veia barriga. Eu ,Arlindo Asogun e Paulinho Alabe da casa tínhamos mesa separada e nos convertíamos em glutões inverterados com as iguarias vindas dos banquetes dos Voduns. A Inesquecível Obasa do terreiro de “Seo” Miguel Grosso ou Dewanda ou Miguel de Tempo, negra “véia” desgastada pelos anos ao fogão, tinha o coração de ouro e as mãos de fada, resmungona em seu território, ciumenta de suas panelas , Obasa reinava absoluta no terreiro, primorosa com seus quitutes. Creio que até eu se fosse Orisa ou Vodun não perderia por nada uma obrigação por lá, ou no mínimo seria parada obrigatória para se abastecer o “Ona Ofun” na ida ou vinda da África. Minha mãe Bida muito embora pouco fosse a cozinha era uma excelente professora, respeitada e ouvida atentamente por todos, eximia nos cozidos do Orisa, Vodun e Nkisi. Sabia tudo. Na sua casa em Cascadura a mesa era farta e a cerveja sempre gelada. O feijão de Iya Bida era único e seu famoso “toicinho mal cozido” um acepipe degustado por poucos. Assessorada por Rosa de Oya  ou por Otavia que primavam nas mesas servindo os convidados cuidadosamente e dosando parcimoniosamente o “Toicinho”. Iya Odé Toni, negra esguia, elegante e rápida na cozinha conhecia como ninguém os segredos dos Orisa da Ilha Amarela. Nos recebia com gosto e com a mesa sempre farta, em sua casa nunca faltou um bom Acará ou Abará, que Oya me perdoe mas eram divinos e com a cerveja gelada ficavam melhores  ainda. O sarapatel de Matuquevi, mesmo servido em seu tabuleiro era de matar, sempre quente em seu fogão a carvão. Os doces de Kamuriloji sem igual, seu tabuleiro sempre rodeado de pessoas, cocadas e pé de moleque. Primorosa em suas iguarias inigualáveis. Com ela pela primeira vez senti o sabor do refresco “amoda”, “chose de loque”. Carlinda vinda do “Ver o peso” ,do Códó conhecia os segredos da culinária sagrada paraense pois  sabia agradar os Voduns e os Orisa nas noites de festas com seu  arroz de cucha ou sagrado Afúrá bebido em jejum. Reinava ela na cozinha de Citó de Abionka “Manoel Colaço Veras” onde senti o gosto da “Tiquira”; fogo puro, servida no coíte de Joãonzinho Boá da Trindade, casa onde conheci Iya Celeste e Mundica Tainha.Com o mastro do Divino em pé e as iguarias à mesa, eram sete dias de mesa farta.
 Um capitulo a parte, o “alquímico” Waldemiro Baiano meu avô de santo com quem vivi e convivi as turras ou as boas por décadas conhecia como poucos os segredos da cozinha sagrada . Do Amala ao Êbô onde ele punha as mãos tinham gostos diferentes  mesmo sendo insípidos ou muito temperados. O Parque Fluminense produziu excelentes Iyas base ou Sinje, sob sua batuta “Papai Ilza D`Osala”, Kita de Oya, Vilma D `Ogun entre tantas que tiveram o privilégio de estar na cozinha do velho e rabugento Baiano cujas qualidades atravessaram as fronteiras estaduais. Exímio no cantar, no dançar e incomparável na cozinha, do èfó ao mohin mohin ao  acará o latipa o abará, tudo em sua cozinha era perfeito.
                Assim vivi no Rio de Janeiro e depois São Paulo, entre o atabaque a faca e os pratos , sem falar nas garrafas, uns quentes e outros gelados, mas o prazer era infinitamente pleno. Vivi entre os segredos mais bem guardados dos terreiros, pelo menos eu pensava assim afinal todos falavam,  “essa comida é de preceito” e ninguém sabe fazer, veja, aprenda e se cale, faça em sua casa e nunca fale nem o nome e assim fiz até que entrei em contato com a literatura .Tudo estava lá escrito, o que eu tinha visto e o que eu nunca tinha conhecido e mesmo assim continuei calado, até que um telefonema me fez acordar...
- Gil quero fazer uma aula sobre cozinha sagrada, você aceita?
- Meu caro Professor Vagner¹, e como seria isso?
                Pela primeira vez creio que na historia da antropologia, o professor e seus alunos foram a um terreiro de candomblé tomar uma aula sobre culinária e assim vi que tudo que estava supostamente escondido não tinha mais razão de ser. Posteriormente nas conversas entre eu e o Prof. Vagner a ideia tornou-se real e muitas foram as aulas que demos juntos assim como os banquetes sagrados e a cerveja, sem esquecer da “mardita” obrigatória ou como falou certa vez Vagner:  “na casa de Esu não se pode recusar a dita cuja, muito embora eu aprecie sobremaneira”.
Do terreiro ao Museu Afro Brasil dai para a Anhembi/Morumbi onde um velho comunista escritor e louco, velho amigo Prof. Dr. Ricardo de Albuquerque Frota Maranhão² e por lá fizemos diversas aulas e nos deliciamos com a culinária sagrada. 
                Segredos escondidos, cozinhas seladas, pratos escondidos embaixo de panos, olhos curiosos, de nada adiantou isso, pois nos  idos de 1928 um observador atento “Manuel Quirino” toma notas nos terreiros mais ortodoxos da Bahia, notas essas que seriam publicadas posteriormente por diversas edições que esgotaram e nos dias de hoje outro pesquisador atento nos brinda com uma nova edição. Raul Lody³ meu irmão mabaça traz de volta “A Arte Culinária na Bahia”, leitura obrigatória para os que querem saber e apreciar a farta mesa sagrada.
 Saiba mais, procure, desvende.
Foto de Oga Gilberto de Esu
São Paulo 20/082012
Oga Gilberto de Esu
¹ Prof.Dr. Vagner Gonsalves USP um grande amigo com quem tenho tido bons momentos.
² Prof. Dr. Ricardo de Albuquerque Frota Maranhão Anhembi/Morumbi. Velho amigo de lutas e mesas fartas.
³ Prof.Dr. Raul Geovanni da Motta Lody, pesquisador de diversos institutos e velho feiticeiro do Bogun, irmão mabaça “Eu tosin e ele Tonão”.
O livro Arte culinária na Bahia é uma edição da Martins fontes, www.wmfmartinsfontes.com.br

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