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sábado, 11 de agosto de 2012

BIOETICA - UMA DISCUSSÃO EM CURSO

OBS: O artigo abaixo foi escrito no ano de 2003, quando da realização do 8° congresso em San Francisco, Califórnia, foi levado a discussão, na ocasião e eminentes representantes eclesiásticos de nossa religião foram ouvidos, entre eles o Aragba de Ifé, o Apena of Ifé e o Awisé of Ifé, alem de diversos Babalawo e Aborisa, dos diversos cantos do mundo presentes na conferencia. Devido ao ineditismo do assunto, todos foram unânimes em se criar um conselho de ética religiosa com a finalidade de respostar aos interessados, criado o conselho de ética com representantes dos diversos países, o Babalawo Akinfaderin, da cidade de Ifon, por ser o mais velho membro presente foi empossado com presidente e no mesmo ato renuncia e apresenta a minha pessoa como o presidente possível, enfim todo o movimento foi impulsionado pela minha fala, o que foi aceito por todos, o documento abaixo foi então imediatamente traduzido, com a finalidade de ser discutido na próxima reunião do conselho. Na reunião apesar das discussões não foi possível chegar a uma conclusão, dado a importância dos assuntos abordados, ficando assim as discussões adiadas para o próximo congresso marcado para ser realizado em Trinidad&Tobago, que por falta da maioria dos membros eleitos não se realizou. Ficamos então de discutir o assunto no próximo congresso que seria realizado no Rio de janeiro sob minha presidência, por ter a Venezuela proponente no ultimo momento desistido. No 10° Congresso realizado na UERJ, uma mesa foi especialmente preparada para tal finalidade e convidados eminentes professores do Rio e de São Paulo, entre eles o Prof.Dr. Flavio Pessoa de Barros, Profa. Dr. Claud Lepine, Prof. Dr. Marcos de Yemanja e eu o autor e proponente da mesa. O assunto chamou atenção dos médicos e operadores da saúde carioca que compareceram e questionaram ativamente todo o paper apresentado assim como as falas dos conferencistas, e um tópico foi discutido com entusiasmo pelos participantes, o ABORTO. Uma pergunta soou repetidamente, SOMOS CONTRA OU A FAVOR DO ABORTO? Como poderão ler, ao levantar os temas, eu agi de forma solitária não tendo pares visando uma posição única, portanto volto hoje a propor que se crie um Conselho de Estudos Éticos-Teológicos da Religião Yoruba com a finalidade, não de ditar regras mas respostar os interessados, e assim estudar melhor nossa própria religião. BIOÉTICA As religiões de matriz africana no Brasil, têm sofrido através dos tempos, problemas sérios no que tange a ética e a teologia, dois assuntos que muito embora soem de forma diferentes, devem ser discutidos no conjunto do pensamento teológico, não é meu propósito falar de ética religiosa, mas sim de bioética teológica. O nível de informações que chega aos operadores da religião é sem duvida o mínimo e a falta de um clero constituído, mesmo que, a nível consultivo, tem nos levado a situações da degradação quase que total da nossa religião. È evidente que de certa forma fomos ludibriados pela formação das federações que eminentemente “umbandistas e cristianizadas” impuseram aos nossos clérigos, idéias permeadas de intolerância e xenofobias e mesmo as de “candomblé” eminentemente policialescas já estavam também contaminadas pelo vírus da moral e dos bons costumes ditados segundo os cânones cristãos. Isso tudo vem causando a todos nós clérigos a permanente falta de informações sobre nossa própria teologia, pois o modelo imposto, o cristão era mais acessível e melhor compreendido por estar codificado e ser imposto aos nossos filhos por nossa própria imposição, já nos primeiros estágios da formação de suas vidas, a infância e a adolescência, por outro lado a falta ou a ignorância dos nossos sacramentos ( Ikomojade -batismo e Igbe iawo- casamento ) irão causar no futuro (hoje) males que dificilmente poderão ser reparados. Do mesmo modo o desconhecimento de nossa gênesis e do panteão pré orisá, nos levou a cultos e reverencias, totalmente equivocadas, e nos dias de hoje nos vemos embaraçados em questões sem respostas. O mundo a nossa volta evoluiu, as outras religiões formaram conselhos sacerdotais, ou consultivos, mesmo as religiões e seitas antagônicas mantiveram diálogos entre si, com a finalidade precípua de dar respostas imediatas aos seus fieis sobre os diversos assuntos, onde um determinado “dogma” da religião pode ser desmentido ou revisto. Enquanto isso acontece, os clérigos das religiões de matriz africanas, concentram-se em contendas de caráter pessoal, difamação publica de outrem ou mesmo entregando-se ao absolutismo de decisões nem sempre éticas e muitas vezes imorais, é importante ainda notar que a problemática do multiculturalismo religioso também tem gerado enigmas e entraves religiosos. A busca desordenada de uma identidade ou de um códice religioso tem se pautado pelas tradições existentes “Ioruba ou Nagô, Dahomeana ou Jeje e Bantu ou Angola” assim sendo, nossos clérigos tem elaborado um intricado imaginário cosmogonico miscigenado que não serve na realidade a nenhuma delas. A Orixalização dos Inkiss e Vodun, em nada tem contribuído com a religião Yoruba, assim como a separação também não contribui com nenhuma delas, isto, se levarmos em conta que todos os pensamentos estão voltados para as entidades que prestam serviços as divindades principais, que nesse caso não é levada em consideração, deixamos de cultuar a Olodunmare e endeusamos os Orisá, e com isso perdemos todo o código teológico e hierárquico de nossa religião. Quando sabemos que não podemos fazer algo, não sabemos porque não podemos fazê-lo, ou mesmo porque podemos, não conseguimos mensurar hierarquicamente o que é um Orisá, se ele é um Ébora ou um Irunmólé ou mesmo que espécie de ser ele é, se divino ou divinizado, se emanado ou não. A meu ver estas questões são relevantes para a evolução de nossa religião, mas surgem outras com a evolução da humanidade que precisam de respostas imediatas e estas de caráter eminentemente teológicos, nossos clérigos não podem ficar digladiando-se sobre assuntos de somenos importância, urge a formação de um Conselho de Estudos Éticos-Teológicos da Religião Yoruba , com a finalidade de responder a questões controversas e nunca dantes pensadas. Como vamos ensinar a nossos acólitos, iniciados ou neófitos, se podemos e porque podemos ou o que reza a nossa teologia sobre : A doação e recepção dos órgãos (transplantes) inter mortos e inter vivos ? A clonagem ? O aborto, (provocado)(consentido)? O recebimento de próteses ? A transfusão de sangue ? A cremação dos corpos ? A eutanásia? O nascimento de crianças de mães (mortas) ? 1- Como pensamos sobre o aborto provocado ? Durante muito tempo vivi no Rj, e conheci muitas “fazedoras de anjo” que eram mães de santo, fazia parte do sacerdócio “socorrer” mulheres ou mesmo adolescentes, que se tivessem o filho e não teriam como criá-lo ou teriam graves problemas na família, portanto o aborto tornou-se vulgar entre nossos religiosos, que viam nele solução de um problema, mas nunca pensaram em termos da religião, no maximo havia uma interdição ditada por Osun, que era o Orisá visceralmente contra, não sei de mais nenhum que se fosse contra nestes tempos. Nos tempos de hoje onde as informações são fáceis, a leitura continua difícil, mas começamos a discutir esse e outros problemas com mais respeito as nossas tradições, em particular aos ensinamentos de IFA, senão vejamos: Conforme os mitos da criação os diversos Orisá elaboram o nosso corpo até que por ultimo somos levados ao deposito das cabeças com o intuito de recebermos o destino, só então somos enviados ao útero materno para nascer aqui no Aiye. Se interpretarmos esse mito com o devido cuidado, veremos que nascemos antes de nascer, quando de nossa chegada ao útero materno já estamos totalmente formados, temos ORI, ODU e BARA assim sendo a meu ver temos que ser virtualmente contra o aborto ou mesmo contra qualquer método contraceptivo, pois sempre que praticamos o aborto, estamos indo contra as leis de Olodunmare. Do mesmo modo a clonagem seria condenada por estes e outros motivos, neste caso fui consultado por uma revista e me dei conta da complexidade do assunto. Se temos características únicas, nosso Odu, nosso Bara e nosso Ori, no caso de uma clonagem nossa copia (clone) teria as mesmas características herdadas, o mesmo Odu, o mesmo Bara e o mesmo Ori? E se assim pensarmos, somos contra qualquer tipo de clonagem? As próteses, segundo mitos de Orisá Oko, Ifa prescreve um sacrifício onde um pênis de madeira deve ser esculpido e fazer parte do sacrifício, ele deverá ser colocado por Oko em baixo de sua cama e fazer parte de sua vida, que passa de impotente a potente, daí podemos interpretar, que o uso de próteses não seja condenado pela teologia Yoruba? A Transfusão e a Doação de órgãos a meu ver fazem parte do mesmo capitulo, essas ações nos remetem ao sangue contido no órgão que será transfundido no paciente. Ora o sangue é o veiculador por excelência do ASÈ, daí minha duvida, um órgão alem do código genético carrega o sangue do doador ou seja o Asé individual, como esse Asé se comporta no corpo de outra pessoa que por sua vez tem seu próprio Asé ? O que viria junto com o sangue e o órgão doado que possa modificar o destino do receptor ? (Segundo noticias recentes, um medico esta defendendo a tese que, o órgão transplantado de alguma forma modifica a vida de seu novo corpo, na mediada em que sua “memória molecular” ira atuar na memória do transplantado.) No caso de órgão inter-vivos, como se comportaria o Odu, Bara, Ori e Iku quando da morte do doador se o receptor esta vivo ? A cremação, neste capitulo nos chama a atenção de forma substancial os mitos de Abiku, os únicos que prescrevem a cremação, a desfiguração e destruição do corpo, em todos os outros mitos os corpos de vem ser enterrados depois do processo de Asese, no meu entendimento a cremação é uma abominação aos olhos de Olodunmare, sendo totalmente contraria a teologia Yoruba Nos tempos de hoje nos deparamos com algo inusitado a Eutanásia, algo que veio a tona recentemente com um caso acontecido nos USA. Em uma conversa com um ancião, ele me esclarece sobre as questões da medicina alopata, homeopata e fitoterápica ou tradicional. O medico alopata segundo ele seria contra a morte, prolongando a vida de quem deveria morrer, enquanto o medico tradicional, em vez de prolongar a vida, tenta restabelecer a saúde e assim evitar a morte, mas nunca colocará o paciente em estado vegetativo, com a finalidade de evitar a morte, pois isso seria contrario aos desígnios de Olodunmare. Nossos anciões já fizeram muito em preservar a religião e agora é nossa vês de fazer algo, tentar unir todos em um só pensamento e isso só poderá ser concretizado se no mínimo conseguirmos constituir um órgão ético-teológico de reflexão aos moldes do já citado.. Uma noticia de jornal, me levou a pensar seriamente nas questões teológicas de nossa religião, e ai, descubro que por mais que procure não encontro nada a respeito. A noticia falava que o governo brasileiro decretava que daí por diante todo brasileiro seria doador compulsório de órgãos, lei que embora modificada continua vigente. Uma outra noticia recente mostra a preocupação das religiões com os problemas modernos. Os casais das diferentes culturas e etnias que procuram as clínicas de reprodução vêm impondo nova rotina a esses locais. Entre os judeus ortodoxos, por exemplo, há os que só se submetem à fertilização in vitro se o rabino ou o seu representante puder acompanhar todo o processo. Segundo o médico Roger Abdelmassih, os religiosos ficam presentes desde a fertilização do óvulo com o espermatozóide no laboratório até a transferência para o útero da paciente. "Existe todo um ritual, com orações." O judaísmo veta a prática da inseminação ou da fertilização in vitro com esperma doado. Segundo o rabino Henry Sobel, presidente do Rabinato da Congregação Israelita Paulista, o acompanhamento da fertilização depende de uma decisão pessoal do religioso. Sobel diz que, segundo a tradição judaica, a inseminação pelo esperma de um doador estranho em mulheres casadas poderia não criar laços de parentesco entre a criança e o marido. "A mulher sente-se como se estivesse traindo o marido, e este fica diminuído na sua masculinidade." Para Sobel, a presença do rabino na clínica deixa o casal mais tranqüilo e pode evitar práticas como troca do material genético. No islamismo, qualquer técnica de reprodução assistida também deve envolver somente os dois cônjuges. Assim, são proibidas as doações de óvulo e de espermatozóides e o chamado útero de substituição -quando a mãe biológica não tem o órgão e recorre a outra para gerar o seu bebê. Entre os muçulmanos ortodoxos, também há um ritual para a coleta do esperma que será utilizado na inseminação ou na fertilização in vitro. Como a religião proíbe a masturbação, o homem é orientado a manter relação sexual com a mulher usando uma camisinha especial, que depois é levada para o laboratório para a coleta dos espermatozóides. Segundo o xeique Jihad Hassan Hammadeh, vice-presidente da Assembléia Mundial para a Juventude Islâmica, a religião desaconselha a masturbação, mas a tolera quando o tratamento requer que a coleta do sêmen seja no laboratório. O islamismo não se opõe à utilização de embriões em pesquisa com célula-tronco porque não o consideram uma vida. "A alma só se implanta no feto com 120 dias de gestação." A Igreja Católica condena a reprodução assistida, a não ser que se use técnicas simples, como estímulo para aumento de produção de óvulos. "O filho deve ser gerado de ato de amor e não mecanicamente", diz a médica Alice Teixeira Ferreira, assessora científica da CNBB e docente da Universidade Federal de São Paulo. Segundo ela, do ponto de vista da ética médica, a sobrecarga hormonal que a mulher é submetida para superovular é um risco para a sua saúde. "Moralmente, o filho [por meio da reprodução assistida] é visto como um produto de consumo." E por ultimo, uma noticia me deixa mais preocupado: Uma mulher grávida com dano cerebral grave foi internada num hospital do município de Orizaba, no estado de Veracruz..Em estado de coma, os médicos conseguiram fazer com que o bebê se desenvolvesse em seu ventre e nascesse. Para garantir o nascimento, um grupo de médicos do hospital prolongou por 13 semanas a gravidez. O medico disse que o corpo da paciente funcionou como uma incubadora, graças a uma traqueostomia e a uma sonda direta que foi colocada em seu estômago para alimentá-la. O medico, acrescentou que na 33ª semana de gestação,a paciente sofreu uma crise de hipertensão impossível de ser controlada, razão pela qual decidiram praticar uma cesariana. Caso esta pessoa fosse iniciada, de que forma veríamos essa criança ? Um Abiku ? Se levarmos em consideração que “Bi é verbo nascer e Ku é a morte”, poderíamos traduzir literalmente por “Nascida da Morte” e tratarmos essa criança como tal ? Assim sendo acho que temos que nos preocupar com estas e outras questões que estão surgindo dia a dia e afetando nossa religião, temos que começar a nos preocupar em formar teólogos com a finalidade de criar um códice próprio, só então poderemos fazer valer nossos direitos, como uma religião que somos, respeitada e valorizada por todos, minha proposta para a criação de um Conselho Nacional de Estudos Éticos-Teológicos da Religião Yoruba, isto posto, gostaria que todos os interessados procurassem a coordenação para agendar uma reunião especifica antes do termino de nosso encontro. São Paulo, 08 de 2005 Oga Gilberto A Ferreira de Esu V. Presidente of Orisa World

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