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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Identidade Negra: Descaminhos - ERA ASSIM QUE OGA GILBERTO DE ESU PENSAVA EM 1988. UM PENSAMENTO AINDA TÃO ATUAL.

Identidade Negra: Descaminhos

Gilberto, A. Ferreira *

Como ser negro em um mundo branco?
Historicamente perdemos o contato com o mundo de onde viemos, a Africa, e por consequência também perdemos o contato com a cultura, a religião e o mais importante, a ancestralidade. Na busca desordenada do elemento negro para identificar-se, tenho observado as mais diversas formas de incursões nos mundos culturais e sócio-políticos e notado a profunda insatisfação da procura sem os elementos básicos para uma identificação satisfatória. Se não conhecemos a nossa origem não poderemos nos identificar. Os negros escravos no Brasil aprenderam a viver com os brancos dentro de uma sociedade branca e repassaram isto para as gerações Futuras, criando o quadro que hoje se  observa no dia-a-dia do negro. Mas é importante notar que ao lado deste caos existem alguns grupos que estão solidamente identificados ê que, por isto, são discriminados e alijados da própria sociedade negra, que não aceita mais a identidade ancestral, pois ela foi perdida no processo da escravidão, na pré e pós libertação, assim como durante a luta dos ex-escravos para viver ern uma sociedade branca.
Estes grupos identificados com a origern africana. ficaram conhecidos como macumbeiros, feiticeiros, candomblezeiros e outros apelidos pejorativos, E, apesar de todos os problemas causados pela sociedade branca e pelo elemento negro de ideologia branca nela incluído, estes grupos se conservaram coesos e cada vez mais fechados para todos os elementos da sociedade dominante, seja ele branco ou branqueado.
Busca desordenada, Origem desconhecida
Em 1850 o negro, ainda escravo, tinha fortes laços que o prendiam solidamente às suas origens. Por isto, tudo o que  fazia tinha por base sua própria cultura. A sociedade branca, escandalizada, clamava a todos os poderes constituídos da época, contra a crescente negritude dos grupos que desfilavam nas ruas da Bahia durante os festejos do momo, Nessa ocasião, os europeus, de um lado, formavam bandas de entrudos e súcias, verdadeiros grupos de destruição da ordem estabelecida; de outro lado, apareciam os primeiros afoxés e maracatus, Assim, segundo os intelectuais da época a cidade de Salvador se transformava num verdadeiro pandemô- nio, pois a desordem imperava nos quatro cantos da cidade e esta desordem tinha que acabar a qualquer custo. Os afoxês e os maracatus são o primeiro sinal publico que o negro dava de sua organização e demonstrava também que não havia perdido totalmente a sua identidade como pretendiam os senhores da cultura branca. E importante observar que esses grupos são oriundos de casas de candomblés, pois os afoxés obrigatoriamente saíram de lá, assim como os seus integrantes. Tínhamos os primeiros negros duplamente identificados, primeiro religiosamente e segundo culturalmente, isto não poderia ficar impune. Tinha que se dar um basta, de uma vez por todas, a esta "coisa tão horrorosa": negros organizados, vestidos e até calçados! E a polícia entra em ação a imprensa ajuda, o governo apoia, e o negro luta com todas as armas que dispõe: a malícia a capoeira e as mais importantes de todas elas, a teimosia e a paciência. Esta luta leva quase um século, sem que se apresentem resultados práticos. Não há vencedores nem vencidos, só há destruição. A malemolência do negro será vencida pela introjeção da raça branca. Surge dai o negro de alma branca, apático, dócil, que foge dos seus e de sua própria ancestralidade, ainda latente, pulsando dentro de si e o acusando de covardia.
Nestes tempos para ser negro era preciso, antes de tudo, ser branco. Mas como ser branco e não esquecer de ser negro? A identidade tinha que estar perfeitamente ajustada não só no corpo mas também no espírito, e isso raramente acontecia, pois ser branco era mais fácil e mais lucrativo; era mais fácil ser cristão do que pagão, Ai então o negro passou a adorar deuses brancos, relegando a um segundo plano seus orixás e também sua cultura. Pois um filho que vê seu pai apanhar e morrer por uma coisa raramente a fará também, sua tendência é esquecer o passado e projetar um novo futuro para si e para os seus. Chega de sofrimentos. Basta de mortes. Agindo assim o negro se afasta cada vez mais de suas origens, moreniza-se, branqueia-se, coloca tudo no inconsciente individual, que mais tarde explodiria de forma coletiva mas, infelizmente, desorganizada.
O candomblé passa pelo mesmo processo e se mantém incólume, fechado em seus guetos nos mais recônditos e afastados  locais, longe de toda esta confusão, mantendo assim sua memória viva, pois seus ancestrais estão vivos, como vivos estão seus orixás trazidos da longínqua África. O que viria depois a ser chamada de cultura em conserva habilmente disfarçada através do sincretismo, foi criada pelo medo não só do branco, mas também do negro branqueado, mais perigoso ainda, pois além de traidor frio era totalmente leal ao branco. Este elemento turvo de origem duvidosa, a serviço da sanha assassina de quem paga melhor seus serviços. Foi denominado pelos negros tradicionalistas de omeran e pelos brancos de mulato. Entre marchas e contramarchas chegamos ao tempo do cinema e da Segunda Guerra Mundial. Nessa época tínhamos basicamente três tipos de raças no Brasil: nos extremos o branco dominante e o negro dominado, e no meio o branqueado traidor, vendido ao branco e sem identidade.

Busca cega

Durante este período. o Brasil passa por grandes transformações , assim como seu povos. O negro e o miscigenado não branqueado procuram fórmulas de identidade. O desenvolvimento da imprensa e a propaganda americana influenciarn, de modo fundamental, essa busca, fazendo o resto das cabeças entrar em pane. Os tradicionalistas lutam contra seus próprios filhos, que agora relutarn em aceitar seus preceitos ancestrais e. ao mesmo tempo, não aceitam a cultura branca, tendo a preocupação de assumirem uma identidade entre as duas, criando uma terceira, indefinida. Os cinemas do Brasil estão sobrecarregados de filmes americanos que mostram algo parecido com o que ocorre com os negros brasileiros: o massacre dos índios. Sem ter como denunciar seu próprio sofrimento, o negro passa a se identificar com o índio americano e aí surgem os primeiros blocos de  índios no Brasil. Não era a denúncia do massacre feito pelo branco americano, mas sim do massacre feito contra o negro brasileiro. disfarçado pelo sincretismo de índio americano que na realidade, não levava a nada. Satisfazia apenas aqueles que não tinham outra forma de denunciar seus próprios males, senão aquela muito sutil, que só
seria percebida muitos anos depois pelos próprios negros de maneira amarga. Percebendo isto se sentiam, mais uma vez, impotentes ante uma civilização tão poderosa que os aniquila por dentro e os branqueia por fora.
Que fazer? Explodem então, pelo Brasil, as mais diversas formas de busca da identidade perdida: escolas de samba, blocos carnavalescos, movimentos políticos negros, mas tudo de acordo com as normas brancas, contudo, ocorre um fato que passa desapercebido pelo negro, pois por mais que ele tente imitar o branco termina por fazer de modo negro e por isso se repele.
0 negro não consegue entender porque apesar de estudar e observar todos os preceitos e normas brancas, acaba fazendo tudo errado. A meu ver a razão é muito simples: O inconsciente coletivo atuante fez com que as coisas não dessem certo, pois o indivíduo fez uma coisa quando queria fazer outra. Se o branco introjetou no negro seus hábitos e este tinha seus próprios hábitos gravados nos seus códigos genéticos, a partir dai o negro faz uma coisa querendo fazer outra, e não acerta. Mas mesmo tendo alguma chance de acertar, o branco acabará com ela, porque está também introjetada no branco a ideia da superioridade branca daí o branco deverá acabar com esta chance de acertar, que ele considera uma anomalia.
Para nós, negros dizemos inconsciente coletivo e para os brancos consciente coletivo ou será sentido de autopreservação? Então uma coisa fica patente, o negro não pode e não deve se organizar. O branco intenta impedir isso a todo custo e a luta segue por aí. Mas o candomblé existe. E o negro, e agora também o branco, passam a frequentá-lo para proteger-se do perigo representado pela religião católica e pelos outros predadores naturais, quais sejam o branco radical e o negro branqueado. E o candomblé consegue passar incólume pelos dois e continua sua luta solitária pela preservação da cultura, e seus integrantes se sentem seguros e não ameaçados. Lá fora o caos é completo; o negro não consegue se entender e nem se fazer entender; o branco oportunista faz com que as organizações negras concorram umas com as outras, ou use uma estratégia mortal apadrinhando uma em detrimento das outras, matando assim ambas. Ou então o branco deixa frente a estas organizações aquele negro conhecido como Pai João. E o bloco do meio, formado pelos branqueados, avança nesse processo de não aceitação dos elementos de ambas as culturas (branca e negral).
Outros movimentos são gerados pelas lutas de libertação da África austral, pelo exílio de alguns negros na Europa e a ida de outros para a África. Mais uma vez a Bahia é o embrião dos movimentos, é o local de teste. Surgem aí os blocos afros com preocupação cultural. mas sem compromisso religioso. Seus temas trazem a luta da África austral mas não trazem os inkisis nem os embambas. muito menos suas lendas e mitos, pois isto não interessa à nova ideologia do socialismo branco. Mais uma vez o mesmo discurso antigo: seja negro mas tenha pensamento branco! E o negro vai fundo, aprende ou procure aprender â ser um bom negrinho socialista ou sei lá o que, contanto que seja branco.
Com a negritude crescente a confusão gerada também é grande e maior ainda ê a negação da ancestralidade. O negro não admite olhar para trás de si próprio, tem medo de ser chamado de ignorante e busca as fórmulas aprovadas pelos brancos e escritas por eles, Assim o negro acha que a sua cultura está no Egito e no Sudão, valorizados pelo mundo branco corno a grande cultura africana. Ou na Etiópia e na Jamaica, através da filosofia rastafári e da valorização do reggae. Ou então na Angola e no Moçambique pelo significado que têm de luta de libertação do negro. Temos assim a desinformação gerando a cultura.
Hoje o Brasil está sendo palco das mais diversas manifestações. Todos querem ter a maioria a seu lado, todos querem ter a razão e o negro é mais uma vez objeto de rnanobra, Grandes pensadores procuram a solução para a causa negra. Vários debates, seminários, simpósios, congressos, são feitos sobre o negro. 0 branco coloca que tem que
dar uma solução ao caso ou correr o risco de perder as eleições. Sente que tem que dar cargos aos negros que considera representativo mas que eu considero Pai Joáo e pensa que é obrigado a promover a cultura. Enfim, tem que arrumar alguma coisa para calar a negritude crescente que existe dentro do negro insatisfeito com tudo e com todos.
Apesar disto, o candomblezeiro vive em paz consigo mesmo e com os outros; ele é forte e tem a proteção dos ancestrais; ele não morre; ele não é destruído; ele vive uma vida negra baseada em princípios negros dentro de um sistema branco que agora o respeita mais, até mesmo porque tem medo de sua feitiçaria que embora não exista está assim introjetada.


' Ogan Axogum, Presidente do Têrreirô de Candomblé Ile Iya mi Osun Muiywa, Presidente do Afoxé ' Filhos da Coroa de Dadâ 'Ilê Omô Dadâ), Vice Presidente para o Brasil do International Congresso of Orisa tradition and Culture
Rev, São Paulo em Perspectiva, 2(2):27-29. abr/jun. 1988

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